Thursday, May 25, 2006

O Valentão

Essa história aconteceu em Porto Primavera, interior do Estado do Rio de Janeiro. Faltavam dois meses para o casamento de Marcel. Depois de muito enrolar sua noiva Vera, finalmente ele subiria ao altar. Foram nove anos de namoro e ele agora com seus 29 anos estava finalmente selando a união para a alegria de sua mãe, a costureira Helena e de seu pai, o pedreiro Antônio.
- Pai, tô indo jogar bola lá no campinho.
- Vai jogar não, vai ajudar teu pai a fazer a massa pra obra da casa da outra rua.
- Pô pai, os moleques tão me esperando.
- Sem essa de pô pai, bora já.
- Eu vou jogar bola com os meus amigos – e saiu correndo porta afora sem nem dar ouvidos à ameaça do pai.
- Volta aqui, moleque. Na volta sabe que o cinto te espera.
Marcel sempre foi genioso. Quando menino voltava sempre sujo da escola, às vezes de terra, às vezes de barro, às vezes de sangue, às vezes dos três. Naquele tempo, sua mãe trabalhava como empregada doméstica na casa do prefeito da cidade. Devido a isso, ele conseguiu estudar no melhor colégio da região. Era o mais querido entre os garotos da classe. Piadista, falador, o artista da turma.
- Professora, você tá muito linda hoje, tá mais bonita que a Vera Fischer – disse ele para a professora já idosa.
- Me respeita, garoto.Eu mando bilhete para teus pais.
- Puxa professora, falo de coração. Andei sonhando contigo, pensando, um dia me caso com uma mulher tão linda quanto a minha querida professora do meu coraçãozinho.

Porém, se implicassem com ele era melhor sair de perto. O moleque era pavio curto. Havia uns garotos metidos à besta que volta e meia arrumavam alguma forma de humilhar Marcel. Escreviam na parede do banheiro xingamentos como “Marcel Caipira” ou “Marcel Jeca”. Apesar da covardia, Marcel sabia exatamente quem eram e resolvia a questão à seu jeito: na pancada.
E era bom de briga. Sempre bateu mais do que apanhou. Os meninos esnobes voltavam para casa com o olho roxo. Os pais de alguns deles algumas vezes tentavam expulsá-lo da escola, mas o prefeito sempre dava um jeito de contemporizar com a direção e o moleque escapava. Ajudava nisso Hugo, o filho do prefeito e seu melhor amigo. Hugo era um pouco mais tímido, mas não menos travesso. Aprontaram muito juntos. Num sete de setembro, todos os alunos estavam no pátio para cantar o Hino Nacional como era tradição da escola. Uns dias antes, numa daquelas advertências que ele tomava por indisciplina, ele descobriu que o hino seria reproduzido através de uma fita k7. Ele e Hugo bolaram um plano.
- A gente troca a fita que tá o hino do Brasil, por essa aqui – explicou Marcel.
- Mas o que tem nessa outra?
- Escuta aqui no walk-man.
- Caraca, a galera vai se amarrar. E a cara da diretora? Quero só ver. Isso sim é hino.
Então no pátio, todos perfilados, a diretora anuncia o hino nacional e se ouve:
“Uma vez Flamengo, sempre Flamengo...”
Hugo e Marcel cantam a plenos pulmões com a mão no lado esquerdo do peito acompanhados pela maioria dos meninos e vaiados pelo restante. As meninas entre uma risada e outra também cantam até todos serem interrompidos pelo corte do som e o pedido de silêncio feito pela diretora da escola. Mas o estrago já estava feito. Quando finalmente se ouviu o Hino Nacional, nem os alunos e nem mesmo os professores conseguiram cantar; ainda rindo com o circo armado pelos dois.
Os dois estudaram juntos até a oitava série quando Hugo foi morar no Rio de Janeiro com a mãe depois que seus pais se separaram. Eles por muito tempo ficaram sem saber um do outro. Porém aos 19 anos Hugo voltava à cidade. Seu pai tinha planos de que ele continuasse o projeto político iniciado por sua família há muitas décadas. O primeiro passo seria voltar a morar em Porto Primavera para tornar-se popular. Hugo nunca ligou muito para política, porém se era essa a forma de ganhar dinheiro sem muita preocupação, ele topava.
Marcel estava trabalhando como assessor de gabinete do prefeito da cidade, um afilhado político do senhor Álvaro Trindade, pai de Hugo. Sua namorada era Verinha, a quem ele conhecera num baile funk. Eles viviam entre tapas e beijos graças aos ciúmes de Marcel. Ele não suportava vê-la nos shortinhos curtos que ela gostava de usar.
- Verinha, desse jeito você não vai.
- Ah é. É você que vai me proibir?
- Sou eu sim. Volta já pro quarto e põe uma calça comprida.
- Ah faça-me o favor, homem das cavernas. Tá me achando com cara de freira?
- Freira eu tenho certeza que você não é, mas namorada minha não sai vestida de puta não.
- Seu idiota, isso lá é jeito de falar comigo.
- É jeito sim, veste logo uma roupa, Verinha. Já estamos atrasados, hoje tem show dos Mcs Bolinha e Cabeçudo e eu quero ver.
- Então vá sozinho. Tá pra nascer o homem que vai me dizer como eu devo me vestir.
- Verinha eu vou contar até três. Um, dois.
- Três. Agora pode vazar Marcel.
- Tá bom Verinha, hoje passa, hoje passa. Mas grava nessa tua cabeça de vento. Foi a última vez que eu saí contigo assim.
- Vamos gatinho, também tô louca pra ver o Bolinha e o Cabeçudo. Adoro o Rap do Coração Partido.
E foram eles para o baile. Marcel praticamente colado em Verinha, sem tirar o braço de sua cintura.Chegando lá cumprimentaram os amigos e foram para o meio da quadra dançar. Depois de meia hora Verinha pediu que Marcel comprasse uma cerveja no bar, no fundo da quadra, enquanto ela ia ao banheiro. Aproveitando que os dois se separaram, um rapaz alcoolizado pegou-a pelo braço e disse a ela:
- Tava te olhando. Você é muito gata.
- Qual é garoto. Tá vendo que tô com meu namorado não.
- Larga ele e fica comigo gatinha. Te dou o céu, te dou o mar, te dou o ar que eu respiro pra tu, minha nega.
- Que minha nega, ai, esse bafo de cachaça. Me larga!
- Larga ela, seu filho da puta.

Pronto. Marcel não se conteve e partiu para cima do inconveniente. Logo os amigos de cada um dos lados se intrometeram e já eram uns vinte brigando. Depois de muita confusão, Marcel acabou expulso do baile e Verinha foi com ele. Acabaram sem ver o show dos Mcs Bolinha e Cabeçudo.

- Deixa eu ver Marcel. Tá muito machucado, tá tchuco?

- Tá vendo o que eu tive de fazer, sua doida. Vem nua pro baile, esses bêbados acabam mexendo contigo.
- Ai, não fala assim. Eu me visto assim porque eu gosto tá. E quando você me conheceu eu já era assim.
- Verinha, por hoje chega. Vamos pegar o ônibus logo que eu te deixo em casa. Ai meu São José, onde eu amarrei meu bode.

Na segunda-feira Marcel estava pontualmente no gabinete do prefeito. Não havia muito que fazer. Arrumava os documentos por uma meia hora e de vez em quando visitava uma obra ao lado do alcaide da cidade que só costumava chegar após o meio-dia. Nesses momentos de ócio, ele improvisava uns discursos, sentado na cadeira do chefe.
- Povo de Porto Primavera. Prometo baile funk de graça todo sábado! Prometo também um pagode, afinal ninguém é de ferro. Porto Primavera vai se transformar na capital da alegria do estado do Rio – brincava.
- Muito bom! Muito bom! A terra do funk, do pagode e da bebida a um real!
- Meu Deus, Hugo!
- Dá um abraço aqui Marcel! Que saudade! Vamos pro barzinho aqui em frente bater um papo. Temos muito que conversar.
- Desculpa Hugo, mas não vai dar não. Tô muito ocupado com os afazeres aqui da prefeitura...
- Conta outra. Nessa cidade quem manda é meu pai e esse prefeitinho é só vaquinha de presépio. Caralho, eu querendo demais falar contigo e você assim distante.
- Leva a mal não Hugo, tenho coisas pra fazer, outra hora a gente se fala.
- Tá bom então. Vou te deixar aí com seus afazeres...

À noite, em casa. Marcel foi surpreendido pela conversa de sua mãe.

- Sabe quem está de volta na cidade?
- Sei não, mãe? Quem?
- O filho do prefeito.
- Pensei que esse não voltava mais não. Tanto tempo longe – tentou disfarçar constrangido. Mas sua mãe pegou-o pelo braço e olhando em seus olhos foi incisiva.
- Pela alma de seu pai. Não volte a falar com esse sujeito. Aquele lá anda com o diabo. Se eu souber que você andou novamente com ele não volta mais para essa casa.
- Que isso, mãe? Que papo torto é esse? Vamos mudar de assunto, daqui a pouco Verinha tá aqui e ela não vai entender nada se ver você com essa cara.

A raiva de Helena por Hugo vem dos tempos em que ele e Marcel estudavam juntos, os dois com 15 anos. Num dia desses, Seu Antônio fôra comprar material para uma obra de uma casa vizinha enquanto Marcel adiantava o serviço. Helena, como de costume, levava o almoço para os dois, mas como ainda tinha muita roupa para costurar, decidiu fazer isso mais cedo. Chegando na obra, procurou Marcel. Veio a encontrá-lo com Hugo nos fundos da casa.
- Minha nossa senhora!
- Mãe!
- Minha nossa senhora! Minha nossa senhora, o que é isso? Isso é coisa do diabo, meu deus do céu me ajuda, meu deus do céu!

Antônia caiu dura ao ver Marcel e Hugo se beijando. Marcel pediu socorro médico. Ela foi levada para um hospital em estado grave. Ficou internada por uma semana. Recuperou-se, mas acabou ficando com uma seqüela. Perdeu o movimento no braço esquerdo e nunca mais pôde costurar. Numa conversa a sós com o filho ela desabafou e implorou:
- Isso o que aconteceu foi o diabo dentro dessa família. Mas Deus foi mais forte e me deixou viva. Você tem que entender, foi uma nova chance que Ele nos deu para nos redimirmos todos de nossos pecados. Marcel, você está entendendo bem o que eu estou dizendo. Você nunca mais vai chegar perto daquele menino. Você está entendendo Marcel
- Tô sim, mãe.
- Marcel, olha nos meus olhos. Você me promete? Nunca mais, nunca mais vai falar com aquele menino, nunca mais vai falar o nome dele, nunca mais Marcel?
- Nunca mais mãe, prometo.

Marcel obedeceu a sua mãe. Estavam terminando a oitava série. Nesses últimos dias de aula passou a tomar três conduções para chegar ao colégio, obrigando a levantar às quatro e meia da manhã e andar por meia hora até chegar à caminhonete que os levaria até a cidade. Passaram a sentar afastados um do outro na sala de aula. No final do ano, Hugo foi morar no Rio e eles não voltaram a se ver.

- Aquele ali não é o filho do prefeito?
- Deve ser sim.
- E aquela menina loira do lado dele. Linda ela.Deve ser namorada.
- Eles que se danem. Verinha, vamos cuidar da nossa vida. Esquece esses aí. São de um mundo diferente do nosso.
- Olha que carro lindo. Eu ainda vou andar num igual a esse quando eu ficar rica. Rica não, milionária.
- Volta pra terra, Verinha. Vai ficar milionária fazendo unha e pé do povo de Porto Primavera? Fala sério.
- É só uma questão de tempo. Tô concorrendo a uma casa e um carro no programa do Gordão. Eu vou ganhar, ficar rica, aparecer na televisão. E quando o Gordão me entregar os prêmios um diretor de novela vai olhar pra mim e dizer: que menina linda, quero ela numa novela minha.
- Tá bom Verinha, sonha. Pelo menos ainda não tiraram esse direito do pobre. Vai sonhando. Mas sonha com os pés no chão porque se sonhar muito alto o tombo vai ser grande.
- Ai Marcel, você é que pensa pequeno. Por isso que tá nesse miserê. Olha que eu te troco pelo Maurício Mattar, heim? Vai brincando comigo.

Quatro anos se passaram. Quinze dias faltavam para o casamento de Verinha e Marcel. Ela continuava trabalhando como manicure e pedicure e ele também como assessor do prefeito só que o cargo voltou a ser ocupado pelo senhor Álvaro Trindade. Na metade de seu mandato, ele já preparava terreno para sua sucessão. O cargo seria ocupado por seu filho, Hugo Trindade.
- Ai Hugo, isso tá indo longe demais.
- Por favor, Marina, eu preciso me casar com você. Imagina só Marina Trindade Vasconcelos, primeira-dama de Porto primavera.
- Grandes merdas.
- Marina, colabora comigo. Sei que é difícil, mas eu preciso vencer as eleições. E imagina se a cidade descobre que o candidato a prefeito é veado. Minha carreira política vai para o espaço.
- Não sei por que você entrou nessa de ser prefeito. Você mal administra sua própria vida, que dirá uma cidade, por mais insignificante que seja essa aqui.
- Meu bem, quem vai continuar mandando é meu pai. Eu fico só acenando para o povo, beijando criancinhas, abraçando os velhinhos. O velho é que manda aqui há uns trinta anos e assim continuará sendo.

À noite, Verinha e Marcel foram para o baile. Calça colada, top, preparada para o show do Bonde dos Taradões. Marcel acabou aceitando, meio que contrariado, o visual de Verinha, afinal, era o visual de quase todas as mulheres na quadra. Ele vestido de camisa branca, calça jeans e tênis também fazia sucesso com a muherada com o corpo que já era forte pelo peso da pá, dos tijolos dos tempos de obra, agora também trabalhado com a musculação que ele começou a fazer de um ano pra cá.
- Verinha, fica hoje aqui só comigo. Sem dançar hoje, valeu?
- Ah, que isso tchuco! Vir pro baile não dançar não tem graça nenhuma. Vamos nos divertir. Vem dançar vem.
- Vai dançar então. Eu fico aqui te olhando.
Verinha dançava enquanto Marcel tomava algumas cervejas, na verdade foram muitas.
- Primo! Você por aqui!
- Pois é, vou morar aqui em Porto Primavera uns meses. Menina, você esta linda. Ficou uma mulher mesmo.
- Você está um gato também. E sabe dançar funk?
Começaram a dançar juntos. Marcel que olhava de longe, já alto pela bebida, foi tomar satisfações a seu modo.
- Qual é rapá, essa mulher tem dono, falou?
E sem tempo para que o primo de Verinha explicasse qualquer coisa, desferiu um soco na cara dele.
- Marcel, seu estúpido. Esse aqui é meu primo. Que merda! Será que você só sabe resolver as coisas na base da porrada. Que merda!

Sem saber o que fazer, o que falar, Marcel foi embora do baile. Ficou andando pelas ruas do centro da cidade quando alguém que passava de carro o abordou.

- Sozinho a essa hora da noite?

Era Hugo que passava por ali.

- Entra aqui Marcel, deixa de bobeira.

Marcel parou, ficou olhando um pouco tonto para Hugo e entrou no carro.

- Caramba Marcel, você tá bem?
- Tô bem sim, só um pouco tonto por causa da bebida, mas tô bem. Você me deixa em casa, não, perto de casa?
- Deixo sim, eu só preciso passar na prefeitura antes, tudo bem?


Chegando na prefeitura.

- Eu preciso trazer duas caixas de documentos aqui pro carro, você tem condições de me ajudar?
Entraram os dois no gabinete do prefeito, quando Hugo foi direto ao ponto. Segurando ele pela blusa.
- Qual é Marcel, você sabe muito bem porque eu te trouxe aqui. Não fica dessa forma fria olhando pra mim. Eu sei, você ainda tem desejo por mim. Percebi desde a vez que nos reencontramos nessa sala quatro anos atrás. Por que esse medo, heim? Tira essa roupa. Fica comigo, aqui.

Foi tirando a roupa de Marcel, que não resistiu. Beijaram-se ardentemente . Hugo virou-se de costas e Marcel colocou-o com o corpo apoiado sobre a mesa do prefeito. Ali transaram matando uma saudade de muito tempo. O coração dos dois era o único som a imperar naquele lugar. Quando de volta ao carro, Marcel foi taxativo.
- Isso nunca mais vai acontecer. Entenda bem.Isso o que aconteceu é contra Deus, é contra Deus, tá me entendendo.
- Se é contra Deus por que estamos juntos novamente? Por que ele me trouxe de volta a essa cidade que nem no mapa está?
- Ele está me testando. Eu deveria ter resistido. O que eu fiz foi pecado.
- Pára com isso, Marcel. Que pensamento mais infantil. Você acha que o pensamento de Deus está escrito num bloco de papel. Aquilo ali é o homem querendo ser Deus. E toda vez que o homem tentou e tenta ser Deus ele desgraça a própria vida e a dos outros homens.
- Me leva pra casa, Hugo.

No dia seguinte Marcel foi ao salão em que Verinha trabalha pedir desculpas.

- Ontem à noite eu mandei muito mal. Sei que fui estúpido. Eu tava muito mal. Me desculpa mesmo. Eu preciso de você.
- Tchuco, você sabe que eu te amo. Mas você ás vezes vacila muito. Mas você sabe que eu te amo. Fica assim não. Me dá um beijo. Tenho que te contar o que andei vendo para o nosso enxoval, cada coisa mais linda.

Já Hugo desabafou com Marina

- Ontem eu tive certeza de que a minha vida está totalmente ligada ao Marcel. Sinceramente não sei o que fazer. Tem essa merda de eleição, tem meu pai, tem...
- Tem eu Hugo. Olha só o que você está fazendo. Tá levando você, eu, uma cidade inteira pro buraco por causa dessa mentira. Eu nem sei porque eu ainda estou te ajudando.
- Não me deixa agora não, Marina.
- Não vou te deixar. Mas pensa bem Hugo. É a tua vida.

Os dias se passaram. Era véspera do casamento de Marcel e Verinha. Um Hugo transtornado foi procurar Marcel na prefeitura.
- Não casa com ela, por favor.
- Fala baixo! Entra aqui nessa sala.
- Não casa com ela. Eu sei que você não a ama. Vamos embora dessa cidade. A gente vai para o Rio ser feliz.
- Tá maluco, Hugo. Nós temos uma vida aqui. Você vai ser prefeito dessa cidade e eu amanhã vou me casar. Faz o seguinte, me esqueça. Vai ser melhor pra nós dois.
- Marcel, nós crescemos juntos, nossa história.
- Não fala em história... vamos esquecer esse passado... pensa no teu futuro...
- Que porra de futuro, eu não quero ser prefeito, eu quero ficar ao teu lado.
- Hugo, eu vou me casar amanhã. Eu vou ter filhos com a Verinha, vou tocar minha vida e você vai esquecer de mim.
- A vida não tem rascunho, Marcel. A vida não se apaga. Eu não vou esquecer você. Eu não quero esquecer você. Eu te amo.
- Tchau Hugo.

Marcel chegou em casa e ficou trancado no quarto por uma meia hora. Só foi interrompido pelo chamado de Verinha que veio lhe contar os últimos detalhes do casório. Ela ficou descrevendo cada compra, cada enfeite, mas Marcel estava aéreo. Namoraram um pouco e despediram-se no portão. Afinal, o dia seguinte seria longo e era bom dormirem cedo.
Dia do casamento. Marcel estava pronto.
- Meu filho você está lindo, lindo, lindo. – alegrou-se sua mãe - Olha Antônio. Nosso filho, finalmente casado. Agora sim posso dizer: já é um homem.
- Parabéns, meu filho. Casamento é uma responsabilidade muito grande. Mas você está casando com uma moça muito bonita, um pouco doidinha, mas muito especial. Que você seja muito feliz – desejou seu pai.
- E que nos dê netos logo, logo.
- Obrigado pai e mãe.

Igreja cheia. Vieram todos os parentes das famílias. Gente que eles não viam há anos. Os bancos decorados com rosas brancas. Marcel já estava no altar e a marcha nupcial anunciava a chegada da noiva no vestido branco que foi de sua mãe. Marcel a recebeu com um singelo beijo e ajoelharam-se para ouvir o sermão do padre. A missa transcorria serenamente quando o improvável aconteceu:
- Marcel, eu tô indo embora para o Rio de Janeiro. Eu não agüento ficar nessa cidade longe de você. O tempo em que passei longe não foi e nunca seria suficiente para que eu te esquecesse. Porque o amor não se esquece, o amor não se transforma. Ele é como a poesia guardada num livro. As palavras podem adormecer fechadas em suas páginas, mas quando abertas o seu vigor ou a sua ternura está lá. E eu tô aqui Marcel porque eu te amo. Eu tô aqui Marcel porque eu sei que você me ama. Eu tô aqui Marcel pela nossa vida que só será poesia se ficarmos juntos.

E o valentão chorou, se derramou todo como manteiga fora da geladeira. Correu toda a igreja e foi ao encontro do seu verdadeiro amor. Foram para o carro e pisaram fundo deixando para trás uma igreja revoltada, enfurecida e uma cidade pequena demais para o amor dos dois. Hoje eles moram juntos. Com o apoio da mãe do Hugo, alugaram uma quitinete em Copacabana. Marcel trabalha como segurança de uma boate gls e Hugo milita num grupo de apoio aos homossexuais. Pretende candidatar-se a vereador levantando a bandeira do arco-íris. E assim vivem felizes.

Wednesday, May 17, 2006

Os amigos

Heitor tem 36 anos. Há dez é casado com Fernanda, dois anos mais nova que ele. Vivem um relacionamento daqueles considerados normais. Moram juntos, uma vida social tranqüila, bom relacionamento com família, amigos e vizinhos. Fernanda trabalha como analista de recursos humanos numa empresa recrutadora de pessoal. Funcionária exemplar, é tida como de ótimo relacionamento com seus colegas e patrões. Já Heitor é sócio-proprietário de uma empresa de assessoria de imprensa. Em pouco tempo transformou seu empreendimento num dos mais conceituados no Rio de Janeiro.
Heitor é sócio de Márcio. Amigos desde a adolescência, entraram juntos na faculdade de jornalismo. São daqueles amigos fiéis um ao outro como um cão a seu dono. Durante o período universitário ganharam o apelido de Cosme e Damião por estarem sempre juntos. Apesar de não serem os que mais chamavam a atenção das meninas da turma pela beleza, eram caras-de-pau o bastante para jogar cantada nas mais lindas. Heitor era o mais bem-sucedido por ser dotado de um senso de humor que cativava as garotas. Márcio já era mais rude. Uma vez tomou um tapa ao tentar ficar à força com uma delas numa chopada de começo de período.
Terminando a faculdade, já planejavam montar a empresa de assessoria. Entre uma tomada de decisão e outra batiam uma bolinha na quadra da universidade. Os dois eram atacantes do time da turma. Entendiam-se por música. Heitor era especialista em deixar Márcio na cara do gol para marcar e correr para o abraço do amigo. Sempre que um dois dos dois balançava a rede a comemoração era sempre com um longo abraço e um beijo no rosto. Com os corpos suados seguravam um no cabelo do outro e olhavam-se firmemente explodindo de uma felicidade tamanha que o sorriso no rosto dos dois não negava.
Era final do campeonato entre os cursos da universidade. De um lado o time da educação física do outro o de jornalismo. O jogo transcorria normalmente. Era uma pelada característica: pouco futebol e muitas agressões à bola. Aos 35 minutos do segundo tempo finalmente um gol. O time da educação física abria o placar numa cobrança de falta em que o goleiro aceitou um frangaço. A desculpa dada depois foi de que uma das lentes de contato do míope arqueiro do time havia caído no exato instante em que o cobrador chutou a gol. Aos 42 minutos a monótona partida caminhava para seu fim quando a bola caiu nos pés do Heitor na metade do campo. Ele procurou Márcio que estava na lateral fingindo-se de morto, mas atento aos movimentos de seu amigo. Heitor lançou a bola que cruzou todo o campo para cair nos pés de Márcio que já avançava em diagonal. Rapidamente já estava na entrada da área. Heitor acompanhava toda a jogada e já estava livre, próximo à marca do pênalti. Márcio e Heitor olharam-se. Heitor parecia querer dizer “ toca essa bola pra mim para eu poder correr para os teus braços”. Márcio avançou um pouco mais com a bola, fechou os olhos (sim, fechou os olhos) e chutou. A bola veio violentamente ao corpo do goleiro que caiu sobre ela e conseguiu defender. Heitor ficou apenas olhando para Márcio sem nada entender.
O jogo acabou com a vitória do time da educação física naquele magro 1 a 0. No vestiário Heitor aos berros, chutando as portas dos armários veio tomar satisfação com Márcio.
- Puta que o pariu, moleque. Que merda foi aquela que você fez. Eu estava sozinho, de frente para o gol.
- Não fode, porque você acha que eu ia passar a bola pra você. Você marcou um gol no campeonato todo e acha que ia conseguir fazer o gol agora.
- Vai tomar no cu, seu filho da puta. Não marquei porque cansei de te colocar na cara do gol, seu veado.
- Não me chama de veado.
E obviamente Heitor chamou novamente o amigo de veado. Os dois começaram a trocar socos, Heitor caiu no chão e Márcio sobre o corpo do amigo começou a esmurrar sua cara. Somente depois que a turma do deixa-disso apartou a briga foi que a coisa se acalmou. Heitor acabou levado para a enfermaria da universidade. Márcio, depois do banho, com a cabeça mais fria, perguntou para os colegas de time sobre Heitor. Procurou na enfermaria e ele já havia saído. Rodou toda a faculdade de jornalismo e nada. Finalmente conseguiu saber de um colega de turma que Heitor acabara de deixar o prédio. Márcio correu até o ponto de ônibus e lá encontrou Heitor com o rosto inchado. Envergonhado e sem saber o que dizer, só conseguiu soltar um:
- Pô cara, foi mal aê.
Tentou colocar a mão no ombro do amigo que a tirou de forma brusca. Novamente tentou colocar a mão em seu ombro, mas novamente foi repelido por Heitor. Os dois tomaram o ônibus que os leva até a saída do campus. Márcio ás vezes olhava para trás onde seu amigo estava, mas Heitor passou a viagem olhando para a janela também tentando disfarçar dos demais passageiros o rosto inchado.
Ficaram sem se falar por uns dois ou três dias. O motivo da reconciliação: mulher. Heitor foi a um aniversário de um amigo de turma. Ficou encantado com uma menina. Por uma dessas coincidências da vida, a dita cuja era prima de uma amiga do Márcio. Não deu outra. Novamente no ponto de ônibus, dessa vez Heitor abordou seu amigo.
- Conheci a Fernanda, ela é prima de uma amiga tua não é?
Os dois se olharam e com um sorriso daqueles de canto da boca se abraçaram e fizeram as pazes. Márcio deu uma força para o Heitor que começou a namorar a menina. E o tempo foi passando, eles se formaram, Márcio e Heitor com o apoio financeiro de seus pais montaram a empresa de assessoria, Heitor casou com a Fernanda e Márcio casou com a boêmia.
Heitor era o cérebro da empresa. Comandava-a com mão-de-ferro. Márcio era o homem das idéias mirabolantes, mas principalmente o do capital para colocar em prática tais idéias. Dependeram por muito tempo do apoio financeiro do pai de Márcio até a empresa operar no azul. Heitor já não era mais o rapaz bem-humorado da faculdade. Seu semblante estava sempre carregado com as preocupações do trabalho. Márcio, por sua vez, se nunca chegou a ser o cara divertido que seu amigo era nos bons tempos da faculdade, era um homem leve. Cumprimentava todos os funcionários da empresa quando chegava e saía. Enquanto Heitor passava a maior parte do tempo fechado em seu escritório, Márcio preferia a sala da equipe.
Márcio entra no escritório e como de costume dá um beijo numa têmpora do amigo e conta a novidade:
- E aí Heitor? Tenho duas boas notícias. Uma muito boa e outra ótima. Consegui fechar contrato com uma empresa de saúde. Está chovendo na nossa horta, rapaz. Trabalho, Trabalho, trabalho!
- E a ótima?
- Arrumei uma gata pra gente pegar de jeito. Puta que o pariu. Gostosa pra caralho, Heitor.
- E quando vai ser isso?
- Agora. Larga tudo e vamos

Estavam os dois no carro de Márcio. Pegaram a moça no lugar combinado e foram para um motel, no centro da cidade mesmo, não muito longe da assessoria, não sem antes brincarem um pouco ainda dentro do carro. Fechada a porta do quarto, começaram a beijar a moça, Heitor sugava sua boca enquanto Márcio beijava e lambia a nuca da mulher. Rapidamente estavam os três nus na cama. Márcio lambia em movimentos lentos os seios da menina enquanto Heitor a possuía por trás. Em nenhum momento Márcio e Heitor se tocavam, mas seus olhos por muitas vezes percorriam o corpo do outro. Heitor então saiu da cama e ficou sentado de frente para os dois masturbando-se enquanto os outros dois transavam. Ao mesmo tempo em que Márcio gozava sobre os seios da mulher, Heitor gozou sobre o tapete apenas fixo à expressão de prazer do amigo.
No dia seguinte estava Márcio almoçando na casa de Fernanda e Heitor. Ele levara uma moça, mais uma de suas conquistas para almoçar com eles. Depois de algum tempo de conversa na mesa, os dois foram papear a sós no sofá da sala enquanto as moças lavavam a louça.
- Que foda foi aquela de ontem. Fazia tempo que não sentia tanto tesão como ontem, Márcio. Quero um bis quando eu voltar de São Paulo.
- Pode deixar comigo. Vou cuidar de trazer uma gata ainda mais gostosa.
Heitor passaria três dias em São Paulo. Estaria fechando seu primeiro contrato fora do Rio de Janeiro. Eram cinco da tarde e Márcio deveria ainda trabalhar como assessor em um evento de uma empresa de celulares. Primeiro abraçou Heitor, desejando-lhe boa viagem, e depois Fernanda um abraço mais demorado e um recado ao pé do ouvido.
- Amanhã à noite estou aqui de novo.

Fernanda e Márcio sempre foram atraídos um pelo outro. Antes mesmo de Heitor conhecê-la, eles já haviam se relacionado. Por ciúmes, eles acabaram terminando um rápido namoro de um mês e meio. Mas sempre que se encontravam havia desejo de um pelo outro. Quando Heitor e Fernanda começaram a namorar, Márcio tentou afastar-se dela, mas a estreita convivência entre os três foi tornando irresistível para ele voltar a vê-la. Lutou por muito tempo contra esse sentimento, afinal era a mulher de seu melhor amigo, porém numa dessas viagens que Heitor fez a trabalho, a mulher o chamou para um jantar entre amigos. Quando chegou na casa do casal havia apenas ela.
Fernanda o recebeu vestida num hobby transparente. Sem demora, os dois se entregaram ao corpo um do outro. Márcio a levou para a cama do casal onde transaram com imenso vigor voluptuoso. Na cabeceira da cama havia a foto do casal no porta-retrato. Uma foto dos dois na praia. Ela vestida num biquíni vermelho e ele numa sunga branca. Márcio voltava diversas vezes o olhar para a foto entre um beijo e outro em Fernanda. Foi a primeira vez de muitas outras em que os dois voltaram a se encontrar. A mulher de Heitor, apesar de dizer amar intensamente o marido, não se sentia satisfeita sexualmente. Ela confessou a Márcio que Heitor andava fugindo e quando transavam era frio, como se o pensamento de Heitor estivesse longe. Heitor nunca comentou com Márcio qualquer problema no casamento dos dois. Márcio também nunca perguntou.
- Quem era aquela piranha de ontem?
- Ciúmes, Fernanda?
- Márcio, safado como você é, se eu um dia pensar em ter ciúmes de você eu corto os pulsos.

Disseram tais frases entre um beijo e outro. Fernanda havia preparado o jantar. Uma torta de legumes como Márcio gostava. Para beber: vinho tinto. Depois subiram para o quarto. Márcio despiu Fernanda e derramou suavemente pelo seu corpo o vinho que restara na garrafa. Percorreu com a língua todo o corpo de Fernanda com o gosto doce em sua boca. Fernanda contorcia-se de um prazer tão raro no seu casamento com Heitor. Eles só não contavam com a presença de Heitor. A reunião havia sido cancelada e ele voltara para casa no domingo. Com a porta entreaberta, observou tudo o que acontecia em seu quarto sem esboçar qualquer reação. Quando os dois chegaram ao prazer absoluto, ele desceu lentamente as escadas de casa e saiu porta afora.
No dia seguinte, pela manhã, ligou para Fernanda avisando que estaria chegando em meia hora. Márcio ainda adormecia ao seu lado. Ela o acordou e o mandou ir embora, atitude obedecida por ele. Em meia hora não havia qualquer rastro da quente noite anterior. Casa arrumada, lençóis novos na cama. Heitor chegou em casa e a mulher veio recebê-lo com um um automático “Oi amor, como foi de viagem?” seguido de um beijo. Ele retribuiu com um outro bem mais ardente e foi tirando com violência a roupa da mulher. Pegou-a no colo e a levou para a cama. Transaram durante toda aquela manhã como nunca fizeram.
Heitor gozou umas cinco vezes. Fernanda fingiu algumas.

Monday, May 08, 2006

Tempo

Esta é a história de um garoto que deseja ser feliz. André tem 18 anos. Seu ideal de felicidade é bem simples como o de muitos dos garotos de sua idade. Entrar pra faculdade, zoar com os amigos e alguém especial para viver um grande amor. Hoje é sexta-feira, 15 de janeiro. Ele está diante do computador aguardando o resultado do vestibular. Enquanto aguarda, está na sala de bate-papo. Quem sabe a sorte não lhe sorri duplamente.

Namoro22: Oi, quer teclar?

Gustavo18: Claro. Tudo bem contigo?

Namoro22: Sim. E com você? Tecla de onde?

Gustavo18: Leblon e você?

Namoro22: Gávea. Procura o quê, leke?

Gustavo18: A princípio conversar, conhecer alguém pra ser amigo, tudo começa daí, né?

Namoro22: Até que enfim achei uma pessoa assim. Pessoal aqui só quer sexo. É bom, mas quero encontrar alguém querendo ir mais além.

Gustavo18: Você faz o que da vida?

Namoro22: Trabalho e você?

Gustavo18: Eu estou na expectativa. Está para sair o resultado do vestibular e estou aguardando a divulgação do resultado.

André passou todo o ano estudando. Seus fins de semana eram diante dos livros, apostilas e cadernos. Sua rotina semanal era casa, pré-vestibular e casa. Por muitas vezes os amigos insistiam para divertir-se um pouco - boate, praia, cinema - mas ele estava obstinado e somente em raras ocasiões cedeu aos apelos. Seu afinco causou preocupação em seus pais que também o incentivavam a sair um pouco de casa, porém não havia quem ou o que mudasse seu ritmo de estudos.
Quando exausto, André distraía-se na Internet. Conversava com os amigos no messenger e entrava em salas de bate-papo. Era aquele pedaço de felicidade que faltava que ele tentava ali encontrar. Teclou com algumas pessoas interessantes que gostaria de conhecer, mas nunca passou do contato virtual. Aos que insistiam em vê-lo pessoalmente, ele postergava culpando os estudos até que todos acabavam por desistir e desaparecer, deletando-se de sua vida.
Mas a prova passou e André agora estava sem a sua muleta. Não havia mais estudos e agora era só esperar. Não havia mais porque fugir das pessoas. Deparou-se então com a verdade. O medo de trombar com o mundo real dominava-o. E se os pais descobrissem? E se os amigos descobrissem?
O ócio dos últimos dias foi importante para o garoto. Ele concluía que não tinha mais como fugir da verdade. Era hora de viver. O novo ano que se iniciava seria marcado pela mudança. O menino do colégio era agora o cara da faculdade. Assim ele acreditava, assim seria.

Gustavo18: Passei!

Namoro22: Parabéns, leke. Passar pra federal não é fácil não. Parabéns mesmo.

Gustavo18: Estou muito feliz. Você nem imagina o quanto. Caramba, vamos marcar de nos conhecer. Pode ser até hoje ainda se você quiser.

Namoro22: Que empolgação hehe. Mas podemos sim.

Conversaram mais um pouco e trocaram fotos também. André gostou muito do que viu e ficou ainda mais animado para encontrar o rapaz. Estava chegando a hora marcada e André estava pronto. Agora é sair de casa e ficar frente a frente com o cara da internet .
Mas André caiu em prantos.
Teve uma crise de choro, tirou a roupa que demorara a escolher, jogou-se na cama e lá ficou até adormecer. O rapaz foi ao encontro conforme o combinado. Esperou por uma meia hora e voltou para casa. Durante o caminho apagou o número do celular de André de sua agenda e ao chegar em casa fez o mesmo com seu nome na lista do messenger.

Eles nunca mais se falaram.


Esta foi a história de um garoto que ainda vai ser feliz...

Friday, February 17, 2006

A utilidade da futilidade

Maurício tem 27 anos, é auxiliar de escritório, mora sozinho num apartamento no subúrbio carioca. Ganha um salário que não lhe permite grandes luxos, mas para ele é essencial estar sempre bem vestido, o que em sua visão, significa roupas de grife. Mês passado gastou metade de seu salário com uma calça jeans e mais um tanto numa festa de música eletrônica na zona sul.
Com todos estes gastos sempre faltava para o essencial: comida, as contas da casa, as passagens para o trabalho. Para isso Maurício, de uns tempos pra cá, passou a apelar para a prostituição. Entrava em salas de bate-papo cobrando setenta reais por programa. Apesar de sentir um enorme vazio toda vez que o cliente deixava o dinheiro na cabeceira da cama e saía porta afora, a necessidade de sustentar seu padrão de vida o fazia seguir em frente. Adorava que os amigos comentassem sua roupa, ser notado na noite e cantado por vários. Isso o fazia bem.
Estava pronto para mais uma balada. Com roupas caras da cabeça aos pés. Foi comentando com seus amigos no caminho sobre o preço de cada peça e falando mal das pessoas que segundo ele estavam mal-vestidas na rua. Estavam indo para uma rave na Barra da Tijuca. Logo que chegou, comprou uma bebida ice e foi dançar. Gostava de ficar sempre no meio da pista, meia hora lá dentro já tinha ficado com o primeiro rapaz e dispensado logo em seguida. A noite corria bem, como todas as outras, até que alguém o chamou a atenção. Era seu ex-namorado, André. Namoraram durante alguns meses, mas terminaram porque o rapaz mudou-se para São Paulo. O fim não fazia três meses.
— Oi André. Você aqui no Rio e nem deu notícias.
— Maurício! Que bom ver você! Vamos sair dessa zoeira e conversar ali fora.
André estava mais bonito. Mais forte. Maurício desejava intensamente sair daquele lugar a matar a saudade que sentia de sua paixão.
— Rapaz, deixa-me ver você. Você está muito gostoso. São Paulo está lhe fazendo muito bem.
— Pára com isso, Maurício. Sua vida como está? Continua trabalhando como auxiliar?
— Tô sim. E você? Como está sua posição lá na concessionária?
— Consegui subir alguns degraus lá dentro. Estou trabalhando como gerente. Fui transferido para a maior loja da rede. O que está me garantindo um bom salário.
— Tá ganhando bem, mas continua sem vaidade nenhuma, não é André? Sempre básico. Camisa, jeans e tênis.
— É meu gosto. Mas você é que está parecendo um cabide. Assaltou que loja Maurício?
— Tô podendo André. Você me conhece. Sabe que eu não sossego se não estiver a mais bem produzida na noite.
— Com certeza você está a mais.
André sempre achou exagerado o jeito de se vestir do Maurício, mas nunca teceu comentário por não achar fator relevante no relacionamento dos dois. Novamente voltaram para a pista. E ficaram dançando por um bom tempo. Maurício tomou a iniciativa e começou a se insinuar para André juntando seu corpo ao dele. Começaram a dançar, com os corpos colados se entregaram a um beijo para lá de quente. Tão quente que Maurício inconscientemente conseguiu seu objetivo: chamar a atenção de todas as pessoas que estavam ao seu redor na pista de dança.
Já eram quase 5 da manhã quando decidiram tomar o rumo da casa de Maurício. Logo estavam despidos e entregues um ao outro. Maurício estava novamente com o amor de sua vida. Agora tinha tudo o que queria. Naquele momento possuía inteiramente o seu homem. Sentia-se pleno. Transaram até o dia claro quando os corpos cansados adormeceram profundamente até a tarde. Maurício e André levantaram e foram comer alguma coisa na cozinha. Não havia muita coisa na geladeira, então tomaram achocolatado e fizeram um sanduíche. O telefone celular de Maurício tocou. Era um de seus clientes.
— Nada de telefone por hoje. Quero curtir você durante todo esse dia - disfarçou constrangidamente.
— Olha Maurício. Desculpe te decepcionar, mas já tenho que ir. Combinei com meus amigos de estar na casa deles daqui a pouco.
— Esquece seus amigos. Nem parece que sou em quem tá aqui na tua frente.
Maurício novamente aproximava-se de André pedindo um beijo, tocando seu corpo, mas André se afastou. Deu a última mordida no sanduíche e foi para o quarto se vestir. Lá Maurício entrou aos berros.

— O que está acontecendo André? Não está vendo quem está na sua frente?
— Qual é, Maurício?
— Eu não sou qualquer um que você pega na rua não. A gente tem uma história juntos. E você tá indo embora assim desse jeito. Como se eu fosse apenas mais uma conquista sua.
— A gente não tem uma história, a gente teve uma história juntos. Foi ótima enquanto durou. Maurício, pára de palhaçada! A gente sempre soube se divertir muito bem. Não tô entendendo essa sua cena agora. Foi muito gostoso o que aconteceu hoje. Mas logo você que sempre soube conquistar todo mundo se fazendo de vítima.
— Seu filho da puta! Sai da minha casa!
— Posso ao menos terminar de me vestir?
— Você é um lixo!
— Que isso rapaz. Nossa noite foi tão gostosa. Não foi de lixo que você me chamou horas atrás.
— Como você pode! Sai dessa porra dessa casa, agora! – exclamou Maurício misturando raiva e frustração.
André foi embora empurrado por seu ex-futuro-velho-novo-amor até a porta. Ainda de sangue quente, tomou uma chuveirada e foi para o quarto colocar uma roupa. Somente neste momento Maurício deu-se conta. Em cima da cabeceira André havia deixado uma lembrança: Setenta reais.

Sunday, February 12, 2006

Folhetim

Rafael e Renato eram amigos desde a infância. Vizinhos no bairro do Méier, eram quase como irmãos. Jogavam sempre no mesmo time nas peladas, saíam sempre juntos para as festas. Rafael com 23 anos e Renato com 25 eram muito bonitos. Logo, não era muito difícil para eles atrair a atenção das mulheres. Sempre ficavam com pelo menos duas durante a noite. Mas nunca mantiveram um relacionamento longo. Renato chegou a ficar com uma menina por uns dois meses, mas nada sério. Sempre comentava com Rafael que era muito jovem para se prender a alguém.
Uns meses atrás Rafael adoeceu, teve pneumonia. Ficou uma semana sem sair da cama. Renato sempre depois do trabalho visitava seu amigo, passando horas ao seu lado. Somente uma constante situação quebrava essa felicidade. Por muitas vezes Rafael sumia, era na maioria das vezes à noite. Algumas vezes Rafael ficava à espreita esperando Renato chegar, entrar em casa. Ontem, já era por volta de uma da manhã, ele flagrou seu amigo chegar de carro com um rapaz. Rapidamente os dois se despediram e Renato entrou em casa.
No dia seguinte, Rafael que sempre chega meia hora mais cedo em sua casa com relação a Renato na casa dele, ficou controlando da sua casa a chegada do amigo. Quando chegou, esperou cinco minutos e foi até sua casa.
— E aí garoto! Chega aí, vamos lá pro quarto. Comprei uma camisa nova pra usar na “night”, quero te mostrar.

No caminho para o quarto, Rafael tentava tomar coragem para perguntar sobre o rapaz de ontem.
— Não é maneira?
— Muito bonita. Deve ter gastado uma nota nela.
— Dinheiro foi feito para ser gasto. Vou ganhar dinheiro para ficar controlando. Deixa isso pra quando eu ficar velho.

A coragem:

— Rafael, você tá me olhando com uma cara estranha desde que chegou. Tá com algum problema?
— Nenhum problema não.
— Então muda essa cara de nojo aí. Parece que tá com caganeira.
— Ontem eu tava chegando em casa e vi você também chegando de carro com um cara. É um amigo teu que não conheço.

A pergunta pegou Renato de sopetão, sem saber o que dizer.

— Qual é Rafael? Tá me controlando agora? Tá me vigiando.
— Nada a ver. Só to perguntando porque nunca havia visto você com esse cara.
— E?
— E porra nenhuma. Só perguntei.
— Tá bom mamãe. Vou lembrar de te chamar quando for atravessar a rua, tá?

E o assunto morreu por aí. Rafael em casa sentia um misto de raiva, angústia e insegurança. Passou a noite acordado, remoendo o que havia visto na noite anterior. Caiu no choro. No dia seguinte acordou decidido. Tinha algo muito importante a dizer para Rafael. Algo que por muito tempo escondera por um medo de não ser compreendido. De perder seu amigo para sempre. Mas o que havia visto era a certeza de que era o momento de ser verdadeiro como nunca havia sido para seu grande amigo. Arrumou-se para o trabalho e durante todo o dia ficou pensando na melhor maneira de abrir o jogo.
Eram seis horas, o tempo estava escuro, prenúncio de temporal. Rafael ainda não sabia a melhor forma de dizer a seu amigo o que por muito tempo escondera. Chegou em casa com as primeiras gotas da chuva caindo em seu rosto. Sentou-se sobre a cama e concluiu que não teria coragem de falar o que sentia, achou melhor escrever uma carta e entrega-la nas mãos de Renato.
Escreveu a carta de uma só vez. Estava na hora de Renato chegar em casa. Uma ligação no celular, porém, mudou seus planos. Era seu amigo avisando que estava no shopping trocando aquela camisa que comprara devido a um defeito e que poderiam aproveitar para ver um filme. O shopping não ficava muito distante dali. Costumavam ir para lá a pé. Coisa de 20 minutos.
A medida que Rafael andava em direção ao shopping a chuva aumentava. Quando já estava perto já era um temporal, uma chuva como a muito não caía na cidade. A carta estava em seu bolso. Faltava apenas esperar o sinal para atravessar a estrada para o outro lado e pronto. Mas um carro desgovernado interrompeu essa história.
Rafael estava na UTI. Seus pais desesperados, aos prantos. Renato tentava ser forte. Ficava num sofá no canto da sala aguardando a chegada de um médico. Foi quando o doutor chamou o pai de Rafael para conversar.
— Eu sinto informar, mas a situação do Rafael é muito difícil. O que está acontecendo para nós é até algo estranho. Um paciente nas condições em que ele se encontra, não estaria mais vivo em muito pouco tempo, mas ele se mantém vivo por todas essas horas e ainda não estamos entendendo bem o porquê. De qualquer forma estamos avisando ao senhor porque o quadro se mostra irreversível.
Renato estava logo ao lado sentado e ouviu todo o comunicado do médico. Mas ainda manteve-se quieto. Os pais de Rafael foram encaminhados ao quarto do filho para um definitivo encontro. A mãe saiu do quarto desolada e o pai apenas tentava confortá-la.
Estavam novamente os três na sala numa situação que se arrastava por mais duas horas. Foi então que Renato pediu para ver Rafael. Os pais do rapaz ficaram um pouco surpresos, mas o pai tomou a atitude de permitir sua entrada no quarto. Estavam os dois juntos, sozinhos, pela última vez. Renato ficou por um bom tempo apenas olhando Rafael como que recordando tudo que viveram e lamentando o que deixarão de viver. Foi então que Renato pegou a mão de Rafael e inclinou-se em direção ao seu ouvido e num firme sussurro disse:
—Eu te amo.
Depois beijou seus lábios docemente.
Saiu daquela sala serenamente assim como estavam as feições de Rafael. Menos de quinze minutos depois o médico deu a notícia de que Rafael havia falecido. Sem ter muito mais o que fazer ali, Renato despediu-se dos pais do rapaz. Quando já deixava a sala, o pai de Renato chamou-lhe num canto :
— Eu fiquei um pouco em dúvida se deveria te entregar esta carta. Estava no bolso do meu filho. Mas é a vida dele, é a sua vida. Me sentiria culpado se não a entregasse. Espero que signifique muito para você como, pelo que está escrito, significa...significou para ele.

Renato somente quando chegou em casa abriu a carta para ler.

“Eu por muito tempo guardei um segredo. Um segredo difícil de guardar. Por muito tempo lutei com todas as minhas forças para mantê-lo guardado. Mas eu percebi que estava lutando com uma arma covarde. Estava usando meu medo para esconder esse segredo. Medo de você, de não querer nunca mais me ver; medo dos meus pais, de estar frustrando expectativas, medo do mundo; mas medo de mim mesmo acima de tudo. Medo de não ser forte. Medo de não saber mais quem sou.
Mas eu encontrei num sentimento essa força. Encontrei no meu amor por você essa força. Por isso escrevo essa carta sem qualquer certeza do futuro, se você não irá nunca mais querer me ver, se nunca mais vai trocar uma palavra comigo. Porque o meu amor por você é grande demais, ele não cobra nada, e eu saberei seguir em frente. Mas eu quero que você saiba que nessa carta está a vida de alguém que agora entende porque encontrou motivos para sorrir guardando esse segredo. Porque tinha alguém ao seu lado. Esse alguém sempre foi você. Mesmo não podendo te sentir, mesmo não podendo te tocar, era te olhar e saber de um motivo para a felicidade. Renato eu te amo, cara. É tudo o que resume esse tempo todo a seu lado. Eu te amo Renato, eu te amo.”

Renato guardou a carta e chorou.

Saturday, February 11, 2006

Sala de Jantar

Marcos, 25 anos. Sua mãe Nora 52 e seu pai José 48. Os três jantavam juntos, como sempre jantam. E como sempre em silêncio. Mas naquela noite a feição do rosto de Marcos estava tensa. Ele havia tomado a decisão de contar para os pais sobre sua orientação sexual, segredo que escondeu até então.

— Nora, por favor passa a jarra, pediu José.

Nora estava casada com José há 30 anos. Esposa dedicada, sempre procurava estar disposta ao marido. Era uma mulher de poucas palavras. Tinha poucos amigos que sempre recebia em seu lar. Raramente se ausentava de casa. Mas naquela noite a feição de Nora estava tensa. Ela havia tomado a decisão de pedir a separação.

— José, por favor passa a salada, pediu Nora.

José era um homem tranqüilo. Advogado respeitado, vivia em função da família. Um homem de hábitos conservadores. Não fuma, não bebe e sempre manteve uma relação estável com sua esposa, sem traição.
Do casamento de Nora e José, Marcos é o único filho. Aos amigos, aquela família sempre pareceu um mar de tranqüilidade. Sempre reservados, os vizinhos nunca ouviram qualquer grito, nada que pudesse quebrar a impressão de família perfeita que todos acreditavam ser.
Marcos está se formando em direito, apesar de não estar certo de querer ser advogado. Mas pelo menos tinha a certeza de uma vida estável, já que seu pai já lhe adiantara que teria uma oportunidade em seu escritório.Mas de uns tempos pra cá ele anda inconformado. Inconformado com a vida. Tudo estava errado. Um abismo parecia abrir diante de seus pés.
Nora estava preparando a festa de 30 anos de casamento. Era seu programa vespertino ir ao shopping para fazer as compras para o jantar que aconteceria para celebrar a data. Nada grandioso, apenas para os poucos amigos da família. Não seria agora que abriria-se exceção para a discrição que a família tanto prezou esse tempo todo. Porém nos últimos dias Nora não tem ido ao shopping. Passa todo os dias em casa, costurando ou vendo televisão. Na verdade ela não via televisão, o aparelho apenas estava ligado. Enquanto o par romântico da novela das oito dava mais um beijo apaixonado, seu pensamento estava revolto. Eram os trinta anos que passavam em sua frente. De repente ela se viu diante do abismo.
Nora terminara de jantar
Marcos terminara de jantar
José terminara de jantar.
Por alguns segundos eles se entreolharam.
Marcos levantou e foi para seu quarto
José levantou e foi para o quarto
Nora ficou sozinha
De repente um estrondo vem do quarto do casal.
José acabara de suicidar-se
Marcos chega ao quarto e com o olhar calmo diante do que vê, tira o revólver da mão do seu pai. É o segundo estrondo naquela casa tão silenciosa. Marcos também se suicidava naquele instante.
Nora não passaria a tristeza de ver marido e filho morto. Ela também cometera suicídio. Morreu envenenando-se no jantar que servira.